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Além de um sonho (parte IV - final) - Zeca é de Nando

As horas passaram. O tempo mudara e o clima ficara tenso. O som de uma chuva mansa entrava pela janela ainda aberta até que o celular de Cíntia chamou. Dez horas da manhã. A mãe ligava para avisar que não tinha hora para retornar, e que, então, ela desse um jeito para preparar seu almoço e seguir sua rotina sozinha naquele dia.

Desenrolando-se dos lençóis, levantaram-se nus, banharam-se juntos e fizeram o desjejum enquanto conversavam. Nando, ainda sob efeito do sono e uma leve dor de cabeça, acordara decidido a ir para casa.

- Não sei o que aconteceu comigo, linda. Perdão. Não posso acreditar que fiz aquela cena. Perdi a cabeça. Sou louco por você. E essa noite foi a confirmação de tudo que sentimos um pelo outro. - disse Nando, celebrando a primeira vez de "amor" com a namorada.

- Está tudo bem, amor. Não vai acontecer de novo, né? - contestou Cíntia, demonstrando tristeza no olhar.

- Não. E, por favor, muda essa carinha aí, vai! - respondeu.

Ele perguntou o motivo da tristeza, mas ela deu jeito de desconversar, pois não queria mais discussão. Nando finalizou o café e tocou-se para casa para seguir seu descanso.

Já era quase meio-dia quando Zeca tocou a campainha da casa de Cíntia. Ela estava em prantos. Refletia sobre toda aquela noite agitada que houvera passado. Caiu nos braços do amigo buscando consolo. Deixara Nando com uma interrogação e isso a incomodava profundamente: por que aquele rostinho doce aparentava um ar triste na manhã após ter tido sua primeira vez? Teria sido seu surto de ciúme?

Zeca apenas contemplava toda a cena. Ela o chamara ali pouco depois que o namorado fora embora.

- Preciso esclarecer as coisas, Zeca. Ele não merece isso. Eu não mereço. Você... sabe... - dizia soluçando. Zeca apenas ouvia.

As horas passaram. A chuva aumentara. Raios e trovões iluminavam a tarde escura daquela sexta-feira. Decidida, Cíntia decidiu acabar com a dor que a consumia. Na cozinha, pegou a faca mais pontiaguda e levou para o quarto. Foi até a janela, que agora tinha o vidro fechado e mirou a casa de Zeca. As pernas tremiam. Voltou-se para trás e sentou. Largou a faca sobre a cama ainda desarrumada e pegou o celular.

O relacionamento secreto entre ela e seu vizinho já não tinha mais cabimento. Ficou só e magoada, pois alimentava duplo sentimento: amava um e era apaixonada por outro. Não queria mais ser de dois homens. Olhava para as paredes cheias de livros, mas todas as leituras sobre amor pareciam-lhe não fazerem mais sentido. Vivia uma desilusão provocada por ela mesma.

"Nando, preciso ser honesta com você. Zeca não é meu amigo. Não deixei de ser virgem com você. Não passei calor durante a noite, tampouco aquelas manchas na cama eram de suor. Perdão, perdão, perdão. Acredite em seus instintos, seu pesadelo foi além de um sonho.", dizia a mensagem que Nando recebera por volta das cinco da tarde.

Tomado por um sentimento de tristeza, pela mensagem recebida; culpa, por não ter acreditado em seu sexto sentido; raiva, pela traição; Nando, impulsivo, sai de casa, vestindo uma camiseta branca e bermuda jeans, e vai ao encontro de Cíntia novamente para tirar definitivamente toda a história a limpo.

Ao chegar, se depara com a menina aos prantos pedindo perdão.

- Que papo é esse, mina? Tá louca? Tá me tirando pra idiota? Desembucha!

Foram para o quarto. Cíntia contou toda a verdade. Quis ser honesta, mas parecia tarde demais.

A relação já não teria mais futuro, mas a sina e a vaidade de Nando não lhe permitiriam ver a amada com outro. Colocou a mão na testa, o suor tomava conta de seu rosto, enquanto os olhos marejados e avermelhados fitavam o horizonte. Tremia muito, mas era macho e precisava demonstrar que a traição não teria perdão.

Tomou posse da faca sobre a cama e golpeou o lado esquerdo do peito de Cíntia. Ficou olhando sem demonstrar qualquer sentimento. Matou-a. Confirmara ali, além de todas as características que desenhavam sua personalidade, sua imaturidade, sua irresponsabilidade.

Zeca acompanhara tudo da porta do quarto, sem intervir em momento algum. Insensível a tudo que presenciou, cinco minutos depois, corre para os braços ensanguentados de Nando. Beijam-se, enquanto os olhos abertos de Cíntia, estirada sobre o lençol cinza-claro cheio de manchas vermelhas arredondadas, mira-os. O machão fragilizara-se. Zeca é seu.

Além de um sonho (parte III) - Tirando a limpo

"Abre a porta! Tô aqui na frente.", dizia a mensagem curta e direta que Cíntia visualizou, estranhando, depois de ouvir seu celular tocar, por volta das quatro horas da manhã.

Nando havia pego um dos carros dos pais e saiu de casa discretamente para que ninguém percebesse. Era uma madrugada de outono. Temperatura agradável. Quinta-feira. A mãe de Cíntia havia viajado para a cidade vizinha onde iria passar a noite com o namorado.

A porta se abriu. Cíntia andou na direção de Nando para abraçá-lo e beijá-lo, mas ele deu um passo para trás, deixando-a no vácuo.

- O que houve? Entra! - disse a garota.

Nando respirava ofegante, enquanto observava a casa: - Onde está? - perguntou ele.

- Ela saiu. Foi passar a noite com o Toni, amor. - respondeu Cíntia, aparentemente aflita.

Era uma ninfeta. Querendo disfarçar sua angústia, provocativa, sentou-se de frente para o namorado, deixou as pernas levemente abertas e jogou o cabelo para cima do ombro esquerdo, alisando-o com as duas mãos e um olhar sedutor, convidativo, como nunca houvera feito com Nando.

- Sabe de quem eu tô falando. Quero saber dele. Cadê? Não adianta esconder. - esbravejava o rapaz, andando e invadindo o quarto de Cíntia, após subir um lance de escada que dava acesso aos dormitórios da casa.

Ao entrar, Nando se deparou com a janela entreaberta; a brisa que entrava de fora movimentava a cortina branca; a cama estava bagunçada, vestida com um lençol cinza-claro retorcido, com manchas úmidas arredondadas.

- Abri a janela. Tava muito quente aqui dentro e eu já estava suando. - disse Cíntia, justificando a cena. - Mas o que você tem? Acalme-se. Deite comigo e conte o que está acontecendo.

Nando observou um pouco mais o ambiente. Vasculhou discretamente o quarto da namorada e não conseguiu confirmar o que suspeitava. Sentou-se na beirada da cama e começou a relatar seu pesadelo à Cíntia, que ouviu com atenção, em choque. Os detalhes da história que o rapaz narrava eram tão reais para a garota que por instantes...

- Calma, gato! - disse ela, passando a mão no cabelo de Nando e beijando-lhe os lábios. - Foi só um sonho.

Além de um sonho (parte II) - O pesadelo

- Nããããão! - gritou Nando, acordando de um sonho perturbador.
Prontamente tomou o celular de cima da mesa de cabeceira, à esquerda de sua cama, e vasculhou as redes sociais de Cíntia na ânsia de encontrar algum vestígio que confirmasse o que o sonho havia lhe mostrado e o fizesse acreditar que a mensagem contida naquela noite poderia ser real. Algo poderia estar acontecendo.

Cíntia era morena, tinha cabelos longos, cacheados, sedosos, e exalavam um perfume enfeitiçador. Diariamente, ao acordar e sair da cama, ainda seminua, abria a janela do quarto que tinha vista para a casa ao lado, onde morava Zeca, e espreguiçava-se, alongando o corpo.

Zeca era o melhor amigo de Cíntia. Vivia dentro da casa da garota quando Nando não estava por lá. Nas noites de finais de semana em que o casal não se via, ela o chamava para lhe fazer companhia. Para Nando, Zeca era o inofensivo amigo homossexual da namorada. Era ele quem a alegrava, contando suas aventuras, decepções amorosas, badalações e encrencas familiares.

Zeca foi quem aparecera no sonho de Nando naquela noite conturbada.

O vizinho de Cíntia, era agradável. Tinha sempre uma boa história para contar. Dramatizava, gesticulava, sabia montar bem a cena para narrar seus feitos; às vezes, além de cômicos, chegavam a ser épicos. Para Nando, Zeca era um porto seguro, pois mantinha sua mina em casa, alegrando-a e divertindo-a, e, sobretudo, era gay; não oferecia riscos à sua relação.

Fato é que, para um cara cheio de amarras e de personalidade forte, Nando dificilmente conseguiria superar o pesadelo. O sonho mexeu com Nando e dúvidas começaram a surgir. Como um rapaz jovem, vigoroso e vaidoso conseguiria tirar da cabeça que poderia ser trocado por um...? Como poderia estar sendo traído pela garota ingênua por quem se apaixonou com um pobre rapaz de 19 anos, que gostava de homens e que se dizia amigo?

Perguntas e mais perguntas. Nando estava sendo vítima de um sonho que permaneceria em sua cabeça por dias se não fosse sua impulsividade o levar até a casa de Cíntia para tirar a história a limpo. Queria satisfação sobre o sonho que era só dele.

Além de um sonho (parte I) - Nando e Cíntia

Tudo não passava de um sonho para Nando. Um rapaz moreno de 26 anos, tipo comum, não fosse a mania peculiar de estar sempre reafirmando-se macho para os que com ele conviviam, como se sofresse de algum complexo com sua masculinidade, ou aquilo apenas o fazia construir no próprio imaginário uma figura sua de poder e dominação diante dos demais.

Era imaturo. Ainda dependia financeiramente dos pais, mas se sobressaia aos amigos, sempre a frente bancando festas e rolês, esbanjando riqueza e vaidades. Namorava Cíntia, 18 anos, que morava com a mãe e recém saíra da adolescência, mas ainda carregava consigo pensamentos amorosos. De hábitos aparentemente simples, ela vivia sempre rodeada de seus livros - que formavam uma biblioteca em seu quarto - repletos de palavras de amor, o que a fazia estar sempre cheia de sonhos de uma vida perfeita a dois.

Nando havia se apaixonado por Cíntia, pelo modo de vida que a garota expunha quando se conheceram em um aplicativo de relacionamento. Solta, um pouco destemida do mundo - talvez porque ainda não conhecesse a cruel realidade fora de sua literatura diária -, andava seminua em casa. Estudava a noite. Era letrada. Tinha palavras para todas as situações que necessitasse de argumentação.

Ela mexia profundamente com a cabeça de Nando, entrava em seus pensamentos a todo tempo, era um tormento. Por vezes, ultrapassava os limites do sofrimento. Era sina. E não havia momento certo, nos sonhos do rapaz ela se transformava em pesadelo.

Dormiam sempre distantes um do outro. Nando também houvera se apaixonado pela pureza da jovem e ao longo de um ano de relação ele não tivera conquistado o carinho de Cíntia a ponto de terem o grande encontro.

As noites do playboy eram agitadas, de sonhos pesados. E foi em uma dessas, que Nando, em um turbilhão de pensamentos, teve a visão de sua amada em uma situação que o deixara no limite de sua estabilidade emocional. Apesar de sua personalidade um tanto arrogante, com Cíntia sempre demonstrava complacência, paciência, mas aquela visão tirara sua paz.