Tão lindo

foto: Paulo Renato Garcia

Já amanheceu
Mais um dia
Eu vou sair de casa.

Com você no pensamento
Me levando pro horizonte
Da imaginação.

A rotina é um alento
Pra quem ama
E a dor é um tormento.

Se você lembrar meu beijo
Vai também sentir desejo
De correr pro meu abraço
E de ficar comigo.

O sol vai se despedindo
Fico só
E o dia já está indo,
(Tão lindo).

Só queria que agora
Você ouvisse 
Essa canção sorrindo.

Perceber que é tão doce
Nossa história
E nosso amor tão lindo
(Vou indo.)

- Paulo Renato Messa Garcia - (2025)

Bilhete

foto: Jonathan Schauer

E se pudesse ser escrito... 

Seu bilhete, o que traria? 

Um grito? Um rabisco? 

E que cor ele teria? 


Que emoção carregaria? 

Onde é que o deixaria? 

Na parede? No espelho? 

No balcão da padaria? 


Para quem escreveria? 

A um amor? 

Um desabafo? 

Uma carta à família? 


Desenhos ou palavras? 

Afinal, o que faria? 

Se já sabe para quem, 

Esse alguém, ele leria? 


- Paulo Renato Messa Garcia - (2023)

Al amor: ¡Ojo!

imagem de Internet

 Ya no me acuerdo
cuanto tiempo,
los años se han pasado
y no han dejado
en mi mente ningún
recuerdo.

Sé que los amores
no solamente quedan
sino tambien vuelan
y vuelan muy lejos
casi imperceptiblemente 
en la mente.

Despacio me van volviendo
recuerdos cortos, pocos,
pero demasiado grandes 
por lo que se sabe de 
amores no correspondidos.

Van, vuelan, vuelven...
¿Qué amores son estos
que tan instables,
no se paran en ningún corazón
y que solo habitan el alma
con interés de una ocasión?

- Paulo Renato Messa Garcia - (2007)

Amor virtual

imagem de Internet

De todos os amores
prefiro o secreto
o que vivo seguro
o que é incerto
no que sou louco,
doente, apaixonado.

Dos amores escondidos
desejo o amor inacabado
que nem começou,
o que falta ser aproveitado.

Dos amores reais
sou dos virtuais,
que é fácil, mas que complica;
que é distante, mas é próximo;
que é divertido, mas que entristece;
que é real, mas que é platônico;
que é meu, mas que não é.

- Paulo Renato Messa Garcia - (2005)

Quédate

frame: Outer Banks

Mi nombre no sé
Me llamo pasión
Estoy siempre contigo
Estoy en un rincón.

Busco la vida
Por siempre hasta aquí
Te quiero a mi lado
La busco pa mí.

Tu sonrisa me encanta
Es dulce tu piel
Tengo ganas de verte
Y beber de tu miel.

Quédate aquí, quédate allá
Quédate conmigo
Por siempre te amar.

- Paulo Renato Messa Garcia - (2020)

A ver navios

foto: arquivo pessoal

No meio da rua deserta
soprava o vento da saudade
mesclado com a vontade
de ter-te junto a mim

O sopro que não falava
apenas o tempo mostrava
que o sonho não acabava
e nunca saíra de mim

As folhas secas voavam
seus lugares alternavam
na pele, a dor me tocava
era a brisa do clima frio

Senti que longe estava
e que o sonho enfim ficava
tão só a ver navios.

- Paulo Renato Messa Garcia -

Paixão líquida

foto: arquivo pessoal

Sem inspiração, 
apenas um pensamento. 

Sem intenção, 
apenas um sentimento. 

Sem essa saudade, 
sem a tua presença, 
não há esperança, 
descontentamento. 

A imagem que habita 
é um sortimento. 

Desejo além de carnal, 
envenenamento.

-Paulo Renato Messa Garcia -

Gênero e Educação Sexual: um debate necessário no espaço escolar


Refletir sobre educação sexual e, mais especificamente, sobre gênero é cutucar uma das feridas da sociedade brasileira que ainda parece estar a longos passos de ser cicatrizada, mas que ao mesmo tempo está sendo tratada de diversas formas, ainda que incômodas para grupos dominantes, por meio de alternativas que tentam transformar a realidade e formatar um viés de igualdade no campo social, utilizando muitas vezes o princípio de equidade na busca de soluções para o enfrentamento de preconceitos e discrepâncias, assinaladas em sua maioria por tabus e intolerância.

Neste sentido, é necessária a compreensão de que o conceito de gênero muito está ligado à identidade adotada por um indivíduo geralmente com base em seus genitais, mas também considerando os aspectos psicológicos e o papel que exerce no convívio social. É importante compreender também que gênero está atrelado à masculinidade e à feminilidade (ser homem ou mulher, num contexto histórico ou cultural), e, ainda, ao estabelecimento de significados para as diferenças corporais e comportamentais.

Beatriz Lins, Bernardo Machado e Michele Escoura apontam que
Para além dessas diferenças, as dicotomias entre feminilidade e masculinidade criam desigualdades: articulado com noções de hierarquias e poder, o gênero é também uma forma social de produzir posições de desigualdade entre pessoas, coisas, espaços ou emoções. (LINS, 2016, p.24).

Não é novidade que o machismo ainda seja a relação que permeia, impera e orienta a sociedade em pleno século XXI. Mas, muito além de apenas apontar esta ferida, é preciso entender que os papéis e as relações de gênero estabelecidas são resultantes de um processo histórico de aprendizado de cada indivíduo social, que começa no berço e vai se formatando ao longo da vida. É importante considerar que a sociedade contemporânea carrega traços e ainda convive com resquícios de várias gerações e fases, mas que também, através de lutas e movimentos sociais, já teve diversas conquistas em diferentes grupos de minorias: negros, indígenas, movimento feminista, comunidade LGBT.

Contudo, enquanto grupo social, estamos longe de atingir o conceito de igualdade. No entanto, é necessário frisar novamente que os passos estão sendo dados ininterruptamente, e, na maioria das vezes, de forma adversária ao poder político e econômico. Uma dicotomia clara se relacionarmos aos direitos expressos na Declaração Universaldos Direitos Humanos (ONU, 1948), que garante os direitos essenciais a todos os humanos nos campos civis ou políticos, econômicos ou sociais.

Importante destacar que todas as ações tendem a levar no mínimo à reflexão sobre a posição do homem no mundo. Para esta discussão é bom recapitular que na história, assim como a miscigenação no Brasil não fez com que o preconceito fosse superado, o poder do voto às mulheres não fez com que elas atingissem o mesmo patamar do homem no contexto social.

Considerar tais ganhos históricos como um marco para a igualdade social é anular os percalços ainda existentes em nosso meio e aproximar de um pensamento semelhante ao Mito da Democracia Racial, que considera efetiva a superação do racismo e da discriminação racial no Brasil.

A escola como ambiente transformador

Nesta perspectiva de abolição do pensamento preconceituoso e intolerante, além da família como primeira instituição no processo de socialização e educacional (educação informal), é importante pensarmos que quem exerce papel fundamental na construção do conhecimento (científico) do indivíduo é a escola (educação formal), que desenvolve, em seu âmbito, conteúdos previamente selecionados e segue um currículo, um programa norteado e amparado por leis e regimentos.

No âmbito escolar, é importante que o professor, bem como toda a equipe pedagógica da instituição, esteja didática e dialeticamente alinhada sobre os conceitos da temática, que, muitas vezes, pode ser transversal aos componentes básicos curriculares, no entanto não menos importantes, já que gênero e sexualidade, especialmente na adolescência, são assuntos decorrentes e necessários.

O processo de fuga deste debate na educação formal, não tira da escola a responsabilidade sobre o desenvolvimento do conhecimento biológico e social do aluno no que tange à educação sexual e gênero. Mas tratar tais temas, que já são mitificados, apenas com conceitos técnicos, sem considerar a realidade do grupo escolar, é tornar o debate ineficiente ou deficiente.

É nesta linha de pensamento que Paulo Freire e Adriano Nogueira (1989, p. 19) situam essa reunião de conhecimentos como o paradigma da Educação Popular e a conceituam como “o esforço de mobilização, organização e capacitação de classes populares; capacitação científica e técnica”. Além disso, segundo Freire, o processo de ensino e aprendizagem tem que partir das vivências dos sujeitos, do que ele já conhece, trabalhar sobre os “temas geradores”, com o objetivo da transformação social.

O reconhecimento da sexualidade e a constituição da identidade

A adolescência é a fase de transição da infância para a vida adulta, caracterizada pela passagem da puberdade. É quando ocorre o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários e a aceleração do crescimento, levando o indivíduo ao início das funções reprodutivas. Várias transformações no corpo, que influenciam alterações psicológicas. É o momento em que a pessoa se reconhece como um ser social e sexual. É a fase dos questionamentos, da efetivação de laços e das influências, tudo em busca da definição de si.

Isso, em outras palavras, quer dizer que esse é o período das definições da vida de um indivíduo, inclusive de seu papel e de sua identidade, e isso significa na prática assimilar e reproduzir conceitos culturais constituídos ao longo da vida, seja pela presença do grupo familiar, da mídia, sociedade ou da própria escola.

Se cada grupo foi importante nesta constituição, da mesma forma continuará atuando por meio da reprodução de seus discursos. A escola, por sua vez, e de forma geral, tende a se tornar o vínculo mais forte e estruturante da identidade individual, pois é o ponto de encontro entre os diversos âmbitos da sociedade.

Em um debate mais específico, os conhecimentos provenientes de uma construção individual, muitas vezes servem como reforço aos discursos e modelos provenientes da sociedade, que determinam o que é papel de homem e o que é de mulher. Em torno da discussão de gênero, a função da escola é propiciar o debate e a problematização (no sentido de reflexão) sobre este conjunto de comportamentos e os processos de sujeição, que tenta produzir sentido sobre quem somos e como devemos nos manter para ser o que está definido.

Foucalt (2011, p. 228) identifica esse princípio como “panóptico” e o conceitua como um modelo arquitetônico capaz de suprir as necessidades das instituições de controle. Para ele, o panóptico “deve ser compreendido como um modelo generalizável de funcionamento; uma maneira de definir as relações de poder com a vida cotidiana dos homens”.

Apesar de ter uma nomenclatura recente, esse significado de panóptico está constituído desde que o homem estabeleceu suas relações. Se analisarmos através de uma linha do tempo, percebemos que na própria história os vínculos eram estabelecidos sempre com processos de extermínios, de exclusão ou de segregação do diferente, do que fugia de um padrão preestabelecido, considerados em muitos casos como anormalidades.

De maneira mais relacionada ao tema de gênero, ela também traz o homem como sujeito sempre à frente das situações, especialmente as relacionadas ao poder. Podemos compreender que essa hierarquia construída desde os primórdios com conceitos justificados pela virilidade, e que foi seguida ao longo do tempo, teve diferentes marcos, mas através de um movimento social nomeado Feminismo, desencadeado no fim do século XIX, este paradigma do homem sobre todas as coisas teve os primeiros atos rumo ao seu desmantelamento, com a luta pela participação política da mulher.

O Feminismo foi a raiz da problematização que resultou na elaboração de seu próprio conceito. Passou por outros dois diferentes momentos desde a primeira luta; entre as décadas de 1960 e 1980 houve grande debate em torno da igualdade e o fim da discriminação; agora, e desde a década de 1990, a reivindicação do movimento feminista é pelo reconhecimento da diversidade dentro da diferença.

O Movimento Feminista considera que não somos iguais e que as diferenças precisam ser consideradas e integradas, o que traz a tona o princípio da equidade, colocando a mulher em situações, funções, papeis, cargos iguais aos que antes eram de privilégio dos homens.

Apesar de a sociedade na prática ainda não ter estabelecido em seu mais profundo significado o conceito de multiculturalismo, os debates cada vez mais presentes provocam a reflexão e a quebra de paradigmas sociais. Nesta perspectiva é importante que a escola também seja porta para o debate e para o rompimento de opiniões e sentimentos concebidos sem o exame crítico.

O debate na escola e os norteadores

A escola como instituição que deve pregar pelo multiculturalismo não pode admitir em sua função educadora a existência de uma situação em que um grupo social seja dominante e superior aos de outros grupos. Ela deve servir de alicerce para a construção não de muros, mas de conhecimento, reflexão, e respeito para com as diferenças.

Conforme Lúcia Sousa e Mareli Graupe,
A compreensão do debate de igualdade de gênero propicia ao entendimento de que a igualdade de direitos deve considerar as diferenças entre os sexos, mas não fazer destas diferenças um motivo para continuidade das desigualdades. (SOUSA, 2016, p. 4).

O ambiente escolar não deve ser um espaço que reforça a segregação, sequer pela identidade de gênero. O papel da escola deve ser o de incluir e promover o convívio com as diferenças, com a diversidade, utilizando-se da Educação como meio de efetivar os direitos humanos – universais, não homogeneizantes, não relativizados – e capacitar o sujeito para a cidadania plena, cumprindo com sua função social.

Essas práticas são embasadas e asseguradas à Educação pela Legislação e por orientações curriculares. A Constituição Federal prevê a existência de uma sociedade plural e diz que é objetivo fundamental da República “promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”, considerando a igualdade entre todos perante a lei.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação LDB 9394/96, por sua vez, aponta que o ensino deve ser ministrado com base em princípios como os de pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, e respeito à liberdade e apreço à tolerância.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN traz a Educação Sexual como tema transversal ao currículo e dá significado ao debate com premissas como as de que se deve respeitar a diversidade de valores, crenças e comportamentos existentes e relativos à sexualidade, desde que garantida a dignidade do ser humano; a proteção contra relacionamentos sexuais coercitivos e exploradores; o desenvolvimento da consciência crítica e a tomada de decisões responsáveis à respeito da própria sexualidade; e o reconhecimento como determinações culturais de características socialmente atribuídas ao masculino e ao feminino.

Além disso, a Base Nacional Comum Curricular também indica uma série de competências que colaboram com a promoção e construção de um espaço democrático na escola, tratando pontos como a argumentação com base em fatos, dados e informações confiáveis, a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação como meios para a defesa de ideias e pontos de vista, tomada de decisões com posicionamento ético e a promoção do respeito ao outro e aos direitos humanos com acolhimento e valorização da diversidade sem preconceitos de qualquer natureza.

Com isso, é possível pensar na construção coletiva, ainda que rodeada de adversidades, de uma escola cada vez mais inclusiva, tolerante, respeitosa e caminhando sempre em direção à democracia, eliminando permanentemente os prejulgamentos, concepções de senso comum, atitudes de ódio e agressividade irracional com a maneira de ser e estilo de vida dos indivíduos.

(NOVEMBRO/2019 - apresentado ao Curso Letras – Português e Espanhol - Licenciatura da UNOPAR - Universidade Norte do Paraná, para as Atividades Interdisciplinares)

Além de um sonho (parte IV - final) - Zeca é de Nando

As horas passaram. O tempo mudara e o clima ficara tenso. O som de uma chuva mansa entrava pela janela ainda aberta até que o celular de Cíntia chamou. Dez horas da manhã. A mãe ligava para avisar que não tinha hora para retornar, e que, então, ela desse um jeito para preparar seu almoço e seguir sua rotina sozinha naquele dia.

Desenrolando-se dos lençóis, levantaram-se nus, banharam-se juntos e fizeram o desjejum enquanto conversavam. Nando, ainda sob efeito do sono e uma leve dor de cabeça, acordara decidido a ir para casa.

- Não sei o que aconteceu comigo, linda. Perdão. Não posso acreditar que fiz aquela cena. Perdi a cabeça. Sou louco por você. E essa noite foi a confirmação de tudo que sentimos um pelo outro. - disse Nando, celebrando a primeira vez de "amor" com a namorada.

- Está tudo bem, amor. Não vai acontecer de novo, né? - contestou Cíntia, demonstrando tristeza no olhar.

- Não. E, por favor, muda essa carinha aí, vai! - respondeu.

Ele perguntou o motivo da tristeza, mas ela deu jeito de desconversar, pois não queria mais discussão. Nando finalizou o café e tocou-se para casa para seguir seu descanso.

Já era quase meio-dia quando Zeca tocou a campainha da casa de Cíntia. Ela estava em prantos. Refletia sobre toda aquela noite agitada que houvera passado. Caiu nos braços do amigo buscando consolo. Deixara Nando com uma interrogação e isso a incomodava profundamente: por que aquele rostinho doce aparentava um ar triste na manhã após ter tido sua primeira vez? Teria sido seu surto de ciúme?

Zeca apenas contemplava toda a cena. Ela o chamara ali pouco depois que o namorado fora embora.

- Preciso esclarecer as coisas, Zeca. Ele não merece isso. Eu não mereço. Você... sabe... - dizia soluçando. Zeca apenas ouvia.

As horas passaram. A chuva aumentara. Raios e trovões iluminavam a tarde escura daquela sexta-feira. Decidida, Cíntia decidiu acabar com a dor que a consumia. Na cozinha, pegou a faca mais pontiaguda e levou para o quarto. Foi até a janela, que agora tinha o vidro fechado e mirou a casa de Zeca. As pernas tremiam. Voltou-se para trás e sentou. Largou a faca sobre a cama ainda desarrumada e pegou o celular.

O relacionamento secreto entre ela e seu vizinho já não tinha mais cabimento. Ficou só e magoada, pois alimentava duplo sentimento: amava um e era apaixonada por outro. Não queria mais ser de dois homens. Olhava para as paredes cheias de livros, mas todas as leituras sobre amor pareciam-lhe não fazerem mais sentido. Vivia uma desilusão provocada por ela mesma.

"Nando, preciso ser honesta com você. Zeca não é meu amigo. Não deixei de ser virgem com você. Não passei calor durante a noite, tampouco aquelas manchas na cama eram de suor. Perdão, perdão, perdão. Acredite em seus instintos, seu pesadelo foi além de um sonho.", dizia a mensagem que Nando recebera por volta das cinco da tarde.

Tomado por um sentimento de tristeza, pela mensagem recebida; culpa, por não ter acreditado em seu sexto sentido; raiva, pela traição; Nando, impulsivo, sai de casa, vestindo uma camiseta branca e bermuda jeans, e vai ao encontro de Cíntia novamente para tirar definitivamente toda a história a limpo.

Ao chegar, se depara com a menina aos prantos pedindo perdão.

- Que papo é esse, mina? Tá louca? Tá me tirando pra idiota? Desembucha!

Foram para o quarto. Cíntia contou toda a verdade. Quis ser honesta, mas parecia tarde demais.

A relação já não teria mais futuro, mas a sina e a vaidade de Nando não lhe permitiriam ver a amada com outro. Colocou a mão na testa, o suor tomava conta de seu rosto, enquanto os olhos marejados e avermelhados fitavam o horizonte. Tremia muito, mas era macho e precisava demonstrar que a traição não teria perdão.

Tomou posse da faca sobre a cama e golpeou o lado esquerdo do peito de Cíntia. Ficou olhando sem demonstrar qualquer sentimento. Matou-a. Confirmara ali, além de todas as características que desenhavam sua personalidade, sua imaturidade, sua irresponsabilidade.

Zeca acompanhara tudo da porta do quarto, sem intervir em momento algum. Insensível a tudo que presenciou, cinco minutos depois, corre para os braços ensanguentados de Nando. Beijam-se, enquanto os olhos abertos de Cíntia, estirada sobre o lençol cinza-claro cheio de manchas vermelhas arredondadas, mira-os. O machão fragilizara-se. Zeca é seu.