A Maria e seu ‘piuí’


Imagem de Internet
Ela percorre as ruas encantando a muitos e despertando a fúria de outros; apitando, fumegando e chamando a atenção, muda o cotidiano de um rincão do estado, motivo de surpresa e espanto de alguns. Do centro ao Passo ela vai contagiando a população, levando ao soar do apito alegria e descontração; aos adultos até causa inveja, uma vontade boa de voltar a ser criança. Pelas principais ruas da cidade ela passa distribuindo acenos e sorrisos de seus passageiros que gozam de momento talvez único em suas vidas. Símbolo de nostalgia e melancolia para quem na época em que uma viagem durava horas, se deleitava num encantador passeio sobre a velha ferrovia que nos deixa saudade. Pretextos não faltam para a criançada correr pedindo ‘5 pila’ aos pais. Novidade em São Borja, chegou a maria com seu piuí!

- “Quanto mais animação, mais tempo de passeio!” Diz o rapaz que conduz Maria. E assim ela segue, com sua embarcação, lotando todos os lugares que dispõe, conduzindo as pessoas a uma viagem envolta em nuvens de lembranças e sonhos. Mas é preciso também ver o outro lado disso tudo, a outra face da emoção. O soar do apito não só aguça os mais belos sentidos dos cidadãos na “terra dos presidentes”. Os senhores, as senhoras que moram nas regiões por onde passa Maria e espalha sua efêmera ‘alegria’, e ainda os motoristas que a encontram no caminho são os que reclamam do tráfego dessa espécie de bondinho sobre rodas, porque para eles qualquer coisa ela é, mas não Maria, o velho símbolo do encanto. Justificam que o ruído da ‘velha máquina’ interrompe o descanso e perturba o trabalho, irritando constantemente com seus repetidos ‘ilariês’, ‘tuntz, tuntz’ e gritos do animador. Sim, músicas infantis em alto e bom som. Sim, crianças ouvem música eletrônica, e sim, até animador tem a maria-fumaça. Nas ruas, ela tem sido uma espécie de ovni, só que no chão. Os motoristas que se deparam com ela precisam fazer manobras para desviar, tal o tamanho dessa novidade nas ruas.

Outro dia navegando pelas redes sociais na internet vi que internautas ‘twittavam’ sobre o incômodo que o ‘piuíííí...’ da ‘geringonça’ gerava em suas vidas. Mas por certo suas valiosas vidas não devem se resumir a duas ou três semanas. Talvez essas pessoas não saibam o valor que tem um sorriso, um momento de entretenimento para uma criança. Quiçá o precioso tempo dessas pessoas ainda não tenha oportunizado que percebessem um sorriso de satisfação por fazerem alguma coisa que gostam, ou por não saberem que crianças são crianças, e que adultos também se alimentam de sonhos infantis.

“Quem ta feliz dá um grito... Quem gostou do passeio dá um grito!” e chegam para o desembarque voltando à dura realidade, mas na esperança de que voltem a ouvir o som do apito outra vez... E que dessa vez eles ainda não sejam adultos, que ainda tenham em si a essência da infância e possam oferecer aos seus filhos o mesmo instante de alegria, do contrário: guerra a Maria e seu piuí.



Duas oportunidades em minha vida retomam a memória. Numa delas lembro que pude disfrutar de uma viagem sobre as velhas ferrovias que ligavam as cidades em seu percurso de ferro; a memória não me deixa explorar tanto daquele momento, eu mal sabia para onde aquele barulhento veículo me levaria, mas marcou e alguns momentos permaneceram como a imagem dos passageiros que andavam pelo corredor para esticar as pernas dentro do vagão azul lotado, e outros sentados nos assentos cômodos do trem conversavam e era possível notar que todos eram iguais. Os bancos um de frente ao outro aproximavam as pessoas que durante a viagem se conheciam e trocavam experiências. Aquela paisagem pastoril que a janela oferecia era como estar fazendo um safári.

Noutra, recordo quando uma dessas marias como a que percorre São Borja estacionava na praça da minha cidade. A alegria de estar vendo aquela máquina me causava a sensação de andar vagarosamente pelas estradas de ferro observando a paisagem bucólica. As imagens pintadas em sua carcaça também eram símbolo de nostalgia. O pato Donald, o Tio Patinhas e tantos outros personagens de desenhos animados que estampavam sua estrutura fortaleciam meu desejo de entrar naquele vagão e me deixar entrar num mundo paralelo. Era o meu sonho de criança voltando a tomar conta do meu dia enquanto no percurso eu viajava ao som das melodias infantis.

O fato é que para cada guri que da mãe ou do pai que sai de casa e desembolsa o dinheiro reservado para a passagem de ida para um dia de trabalho, cada centavo dos ‘5 pila’ é bem empregado. Com sua inocência, ali ele se insere em todas as classes sociais, o rico esquece que é rico, o pobre abandona sua realidade por alguns instantes, e assim seguem em uníssono na sinfonia do “piuíííí...” pelas ruas da cidade cantando, dançando e distribuindo acenos e gritos de felicidade.

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Saudade dos velhos tempos, hehe..
Espero que tenham gostado e também tenham relembrado alguns fatos marcantes em suas vidas.
Até o próximo post! 
Um forte abraço.

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Paulo